Hoje não tem nada que eu fale que me leve a outro lugar. Hoje não tem nada que eu sinta que me faça sentir melhor. Hoje não tem sol, não tem vento e não tem cor. Hoje não me lembro como cheguei até aqui. Hoje nem sei porque me sinto assim. Hoje parece muito com ontem e sem previsão de amanhã. Hoje não sirvo de exemplo, nem de bom nem de ruim. Hoje não quero nada e ainda sinto tudo. Hoje me dói, sangra e ainda aperta. Hoje não queria levantar e não quero deitar. Hoje eu sou a falta e amanhã ainda serei. Hoje eu sou a distância. Hoje eu sou a palavra. Hoje eu sou o coração dolorido. Hoje eu sou a música. Hoje eu não sou nada.
Sou a criança a passar. Sou a música a tocar. Sou a melodia que não te deixa em paz. Sou o vento. Sou o pensamento. Sou a lembrança. Sou a lua. Sou o céu sem as estrelas. Sou o café sem o leite. Sou o arroz sem o feijão. Sou a razão e a incerteza. Sou a beleza que dói. Sou motivo de choro. Sou aquela que sempre está ali mesmo quando não se sente. Sou o pó. Hoje, eu sou saudade e só.
“Quantas vezes a gente, em busca da ventura,
Procede tal e qual o avozinho infeliz:
Em vão, por toda parte, os óculos procura
Tendo-os na ponta do nariz!”
(Mario Quintana)